A Vale e os danos ambientais – Ibiá/MG

Ibiá

“Com o óleo derramado nas águas do (Rio) Misericórdia, começa uma história que retrata com perfeição o descaso, a corrupção e a promiscuidade entre Poder Público e interesses privados, conforme práticas do Estado patrimonialista vigentes no Brasil desde 1500.” Hugo França

Um dos vagões de uma composição da Ferrovia Centro-Atlântica, mais conhecida pela sigla FCA, descarrilou e entornou no Rio Misericórdia, no município de Ibiá, região mineira do Alto Paranaíba, toda a sua carga de óleo pesado. Isso aconteceu em outubro de 2003.

A cerca de dez quilômetros abaixo do local do ocorrido, fica a estação de captação de água que abastece a cidade.

A empresa responsável pelo desastre, a FCA, é parte do grupo Vale, a maior mineradora do país e, na época, a 12ª maior mineradora do mundo, segunda maior empresa brasileira em valor de mercado (abaixo apenas da Petrobrás), que havia nascido estatal no tempo de Getúlio Vargas e que, no tempo de FHC, foi privatizada.

Os 23 mil habitantes de Ibiá ficaram sem água e a FCA, após pressão por parte da Prefeitura, ofereceu caminhões-pipa para suprir o abastecimento. Verificou-se em seguida que os caminhões pertenciam a uma transportadora de óleo de soja, o que os inviabilizava para o transporte de água potável. As autoridades municipais conseguiram que a frota de caminhões fosse substituída.

Dessa forma funcionou o abastecimento de água da cidade até que se concluísse a implantação de um novo sistema. A captação agora seria feita em outro rio, o Quebra-Anzol, distante cinco quilômetros da estação de tratamento. Foi assinado o Termo de Ajuste de Conduta (TAC), onde foram reivindicadas,  entre outras compensações, obras nas áreas de saúde e educação e diversas obras acabaram realizadas. A captação do Rio Quebra-Anzol, a principal e mais urgente entre elas, continua abastecendo de água limpa e sem riscos a comunidade de Ibiá, até hoje.

Tentativas por parte da Vale para abafar o caso dos danos ambientais em Ibiá, MG e de não assumir a responsabilidade por eles

  • A Vale mobilizou toda a sua influência para tentar desqualificar a gravidade do ocorrido;
  • Representantes do governo de Minas, na sequência de reuniões em que se procurava fazer valer os interesses da população atingida, chegaram a declarar que o óleo derramado “iria purificar as águas do rio”;
  • Gabinete do governador Aécio Neves em ligações em que tentavam abafar o caso;
  • Ligações do próprio presidente da Nestlé;
  • Até autoridades da PM julgaram-se no direito de emitir opiniões sobre o assunto, como se tivessem conhecimento técnico à respeito;
  • A multinacional alimentícia Nestlé, instalada em Ibiá desde os anos 1960 com uma fábrica de leite em pó, à princípio foi solidária com a cidade, mas, de repente, o gerente local da Nestlé mudou de lado e comandou a organização de um grupo de pressão – faziam parte dele até mesmo técnicos da Petrobrás – com a tarefa de influir para que tudo ficasse como estava.

Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=727253577405719&set=a.556236964507382.1073741845.100003632491382&type=3&theater